ONU troca tanques por livros de autoajuda no Haiti e internet não perdoa
Enquanto tropas chadianas desembarcam e Justiça do Quênia barca policiais, brasileiros lançam best-seller de liderança sobre missão que deixou rastro de cólera e controvérsia.
A ONU resolveu que o Haiti precisa de mais uma dose de boas intenções mal aplicadas. Depois de treze anos de MINUSTAH — aquela missão encerrada em 2017 que virou sinônimo de epidemia de cólera, tiros em favelas e pelo menos um general brasileiro morto em circunstâncias até hoje debatidas —, agora chegam soldados chadianos enquanto a Justiça do Quênia brinca de empacotar policiais que ninguém perguntou se queriam ir. Nas redes, o clima é de déjà vu com pitadas de deboche: "Ah, sim, desta vez vai dar certo", comentou um usuário que claramente não apostaria nem no bicho.
Do tanque ao coach quântico
O timing para lá de oportuno veio do Ministério da Defesa brasileiro, que aproveitou o momento para lançar um livro intitulado "Missão Haiti — 7 lições de liderança". Nada como transformar uma operação que custou bilhões, deixou o país mais instável do que encontrou e gerou a maior epidemia de cólera do hemisfério em material para workshop corporativo. Os comentários não tardaram: "Lição 1: como causar uma epidemia e não indenizar ninguém. Lição 2: como perder para o Haiti por 6 a 0 no futebol e chamar de 'Jogo da Paz'". A ironia afiada domina os threads, com internautas relembrando que a ONU se recusou a pagar compensações às vítimas da doença importada por tropas nepalesas.
A memória coletiva das redes também resgatou figuras como Augusto Heleno, hoje político de destaque, que comandou a operação nos primórdios e hoje defende mandados coletivos no Rio — porque aparentemente a experiência haitiana deixou saudades em alguns. Enquanto isso, acadêmicos como Mamyrah Dougé-Prosper e seus colegas continuam publicando análises duras sobre o que chamam de "longa luta" do país contra intervenções externas, leitura que parece não ter chegado às estantes do governo brasileiro.
O mais recente capítulo veio com a decisão do Conselho de Segurança da ONU de criar missão política para substituir operação policial — tradução: admitiram que a coisa anterior não funcionou, então vão tentar outra com nome diferente. O martirologiado Janklod, símbolo de resistência haitiana, continua sendo evocado por ativistas que veem na nova onda de tropas mais do mesmo. Enquanto os chadianos desembarcam e os quenianos aguardam decisão judicial, o público digital resume: o Haiti vive, a ONU repete, e o Brasil publica livro.
Comentários (0)
Entre para comentar.
Seja o primeiro a comentar.