Urina vermelha e paralisia: o preço salgado da caneta emagrecedora ilegal do Paraguai
Auxiliar administrativa de 42 anos luta pela vida em BH após usar Lipoless sem prescrição; diagnóstico de Guillain-Barré expõe a roleta russa dos fármacos contrabandeados.
A busca pelo corpo perfeito às vezes cobra um preço que nenhuma balança consegue medir, como descobriu a auxiliar administrativa Kellen Oliveira Bretas Antunes. Aos 42 anos, ela transformou o que deveria ser um atalho estético em uma batalha pela sobrevivência nos hospitais de Belo Horizonte. Tudo começou no fim de novembro, quando ela decidiu usar a caneta emagrecedora Lipoless, um produto vindo do Paraguai e vendido ilegalmente no Brasil, sem qualquer orientação médica. O primeiro aviso de que algo estava terrivelmente errado foi a urina avermelhada, um sinal visceral de que o organismo estava sendo envenenado por substâncias desconhecidas.
De dor abdominal à paralisia: a escalada do erro
O quadro clínico de Kellen é um manual de horrores sobre os riscos da automedicação com contrabando. Após ser internada inicialmente no Hospital João XXIII com dores abdominais e receber alta com suspeita de intoxicação, o pesadelo recomeçou dois dias depois com uma fraqueza muscular incapacitante. A mulher perdeu a capacidade de andar sozinha e desenvolveu insuficiência respiratória e problemas neurológicos graves. A família relata que a caneta, supostamente contendo tirzepatida (a mesma molécula do Mounjaro), atuou como gatilho para uma Síndrome de Guillain-Barré, condição autoimune rara onde o próprio sistema imunológico ataca os nervos periféricos. Atualmente, ela recebe tratamento no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, com a família relatando que a paciente tem apresentado melhora e seu quadro é estável.
O caso escancara a falácia da facilidade no acesso a medicamentos milagrosos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibiu a venda e importação do Lipoless em novembro de 2025, mas isso não impediu que o produto circulasse livremente até causar tal tragédia. A família sequer sabe como Kellen adquiriu a ampola, destacando que hoje é possível comprar veneno rotulado de remédio "em qualquer esquina". Enquanto especialistas como o endocrinologista Márcio Lauria, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, alertam que a produção fora dos canais oficiais quebra toda a confiabilidade e segurança do fármaco, pacientes como Kellen pagam a conta com a própria saúde, provando que o barato do mercado ilegal sai caro demais para o corpo humano.
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