Tarot do dia vira febre nas redes: brasileiro vive de previsão em previsão enquanto a realidade passa batida
Veículos de imprensa apostam em leituras diárias do baralho místico e público engole a dose — com direito a ansiedade coletiva por arcanos que nem sempre combinam
Enquanto o mundo real desmorona aos poucos, o brasileiro encontrou seu refúgio sagrado: o tarot diário do site de notícia. Em junho de 2026, a febre atingiu níveis epidemiológicos — O TEMPO, TNH1, O POVO, Correio Braziliense e CartaCapital disputam a atenção do público com previsões para os 12 signos baseadas em um baralho de 78 cartas inventado por nobres italianos do século XV para matar o tédio entre uma orgia e outra.
A história do tarot, para quem se importa com fatos, é menos mística do que parece. As cartas surgiram entre os séculos XV e XVI no norte da Itália como jogo de mesa para a aristocracia. Só no século XVIII os ocultistas resolveram que aqueles desenhos bonitinhos serviam para prever o futuro — e desde então o negócio não parou mais de crescer. Carl Gustav Jung até deu uma força, falando em arquétipos e inconsciente coletivo, o que deu aura científica para uma prática que, convenhamos, continua sendo adivinhação com cara de psicologia de shopping.
O ciclo vicioso das previsões diárias
O público, é claro, reage com a coerência de quem acredita simultaneamente em horóscopo e em lógica de mercado. Nas redes, o meme já é unânime: o usuário acorda ansioso para saber se O Louco ou A Torre vai justificar aquela mensagem não respondida no WhatsApp. A ironia fina é que o tarot original — com seus 21 trunfos, curinga e quatro naipes — nem sequer era pensado para tiragem individual. Era jogo de grupo, gente. Como poker, só com mais reis e menos all-in.
A produção em massa dessas "previsões do dia" pelos veículos de imprensa revela uma verdade incômoda: o brasileiro consome notícia ruim o dia inteiro e, ao final, quer uma cartinha prometendo que amanhã será diferente. O Tarô de Marselha, o Rider-Waite e tantos outros baralhos viraram terapeutas de plantão, com a vantagem de não cobrar plano de saúde. A pergunta que fica: se todas as cartas fossem boas, alguém ainda leria?
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