ONU encerra missão no Haiti após 13 anos de ocupação polêmica comandada pelo Brasil
MINUSTAH deixa legado de 38 mortos, acusações de abusos e epidemia de cólera; nova missão foca em treinamento policial
A Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH) chegou ao fim em 15 de outubro de 2017, encerrando 13 anos de presença militar no país caribenho. Criada pelo Conselho de Segurança da ONU em setembro de 2004, a operação teve o Brasil como maior contribuinte de tropas e coordenador geral da força de paz. A missão foi estabelecida após a saída do presidente Jean-Bertrand Aristide e a eclosão de conflitos entre facções armadas. Ao longo de sua atuação, contingentes de Argentina, Chile, França, Estados Unidos, Nepal e outras nações integraram a operação, que chegou a enfrentar um cenário de estimados 25 mil haitianos vinculados a gangues que dominavam territórios urbanos.
Legado de mortes, abusos e rejeição popular
A MINUSTAH acumulou sérias acusações durante sua permanência. Em 2005, uma ação na Cité Soleil resultou em aproximadamente 60 civis mortos por integrantes da missão. Em 2010, dejetos de uma base nepalesa contaminaram o rio Artibonite, provocando uma epidemia de cólera que matou milhares — doença que não afligia o país desde o século XIX. A ONU recusou-se a indenizar as vítimas. O terremoto de janeiro de 2010 também ceifou a vida de 18 militares brasileiros, além do diplomata Hédi Annabi, chefe da missão, e do vice-presidente especial do secretário-geral Luís Carlos da Costa.
A insatisfação haitiana cresceu ao longo dos anos. Em 2013, o senado do país aprovou resolução exigindo o fim da missão. No ano seguinte, o senador Jean Charles Moise declarou em visita ao Brasil que a presença militar configurava uma ocupação e pediu que tanques de guerra fossem substituídos por tratores agrícolas. Um estudo da Universidade de Colúmbia em 2012 apontou que 65% dos haitianos eram contrários à permanência das tropas.
Com o encerramento da MINUSTAH, foi criada a Missão das Nações Unidas para o Apoio à Justiça no Haiti (MINUJUSTH), com foco distinto: treinamento de policiais e fortalecimento institucional, composta majoritariamente por juízes, diplomatas e policiais — sem o componente militar que marcou a operação anterior.
Comentários (0)
Entre para comentar.
Seja o primeiro a comentar.