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O escritor que virou moda entre ídolos de K-pop e rappers brasileiros: a insólita ressurreição de Hermann Hesse

Nobel de Literatura morto há mais de 60 anos ganha fãs inusitados no século XXI, de universidades paraibanas ao BTS. Entenda como o alemão conquistou gerações que nem sequer nasceram em vida.

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O escritor que virou moda entre ídolos de K-pop e rappers brasileiros: a insólita ressurreição de Hermann Hesse
Imagem: Wikimedia Commons

Se existe alguma prova de que a literatura resiste ao tempo melhor que os próprios autores, ela se chama Hermann Hesse. Morto em 1962, aos 85 anos, enterrado num cemitério modesto em Montagnola, perto de Lugano, o alemão naturalizado suíço virou, no século XXI, uma espécie de guru póstumo para plateias que ele jamais imaginaria. Imagine explicar ao velho Hesse — filho de missionários protestantes que tentaram transformá-lo em pastor, rebelde que fugiu do seminário de Maulbronn antes de completar um ano — que seu livro Demian viraria bestseller por causa de um boy band sul-coreana. Pois é. A vida imita a arte, mas a morte às vezes imita o marketing.

Nascido em Calw, no dia 2 de julho de 1877, Hesse carregou desde cedo o peso de expectativas familiares que não eram suas. Pais pietistas, missionários na Índia, queriam um pastor. Ele queria, pelo jeito, qualquer coisa menos isso. "Eu era um bom aprendiz, bom em latim", diria depois, "mas não era um rapaz muito administrável". Tradução: não suportava gente tentando quebrar sua personalidade. A solução foi clássica para adolescentes em crise desde sempre — rompeu com a família, recusou o cristianismo e, em 1912, emigrou para a Suíça. Lá entre livros e trabalhos braçais, construiu aquela que talvez seja a autobiografia disfarçada mais honesta da literatura ocidental.

O homem que ensinou a sofrer com elegância

A carreira de Hesse começou modesta: poemas em 1899, livraria até 1904, quando finalmente se arriscou como escritor freelancer — sim, o conceito já existia, só não tinha Instagram para ostentar. Peter Camenzind, seu primeiro romance, fez sucesso imediato entre jovens alemães cansados do progresso desenfreado. Depois vieram Gertrud, Rosshalde, e a virada definitiva: uma viagem à Índia em 1911 que resultaria em Siddhartha (1922), romance poético sobre busca espiritual na época do Buda. A Primeira Guerra Mundial quase o destruiu emocionalmente, mas também o aproximou da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Duas influências — oriente e inconsciente — que definiriam tudo o que viria depois.

O reconhecimento oficial chegou em 1946: Prêmio Goethe primeiro, Prêmio Nobel de Literatura em seguida, por escritos que "exemplificam os ideais humanitários clássicos e as altas qualidades de estilo". Ironia dos destinos: quando morreu, em 1962, Hesse estava relativamente esquecido. Críticos tinham virado a página na década de 1950. Sua redescoberta veio nos anos 1960, com o movimento hippie. Mas a verdadeira reviravolta é agora, neste momento bizarro em que O Lobo da Estepe divide espaço mental com TikToks e em que O Jogo das Contas de Vidro — com seu mundo intelectual de Castalia — parece profecia para uma geração que ansiava por ordem no caos pós-guerra, e agora anseia por qualquer coisa que não seja notificação de celular.

Eis o elenco dos novos convertidos. O rapper Ferréz, conhecido por literatura periférica e fanzines, mantém Hesse em sua biblioteca pessoal — uma combinação que soaria absurda se não soasse tão sincera. O grupo de K-pop BTS simplesmente ressuscitou Demian das prateleiras empoeiradas, transformando-o em bestseller global através do álbum WINGS. Enquanto isso, a Universidade Federal da Paraíba organiza colóquios acadêmicos sobre sua obra. De festivais de teatro em Curitiba — onde o solo Sidarta adapta sua narrativa de busca interior — a memes de autoajuda que distorcem suas frases mais melancólicas, Hesse está por toda parte.

A última fonte a citar o autor, o jornal indiano The Economic Times, resume o fenômeno com uma citação que seria impossível não destacar:

"Love your suffering. Do not resist it; do not flee."
Amar o sofrimento, não resistir, não fugir. Conselho que soa como terapia cognitiva barata, mas que vem de quem realmente sofreu — crises emocionais, duas guerras mundiais, três casamentos (Maria Bernoulli, Ruth Wenger, Ninon Dolbin), e a eterna sensação de não pertencer a lugar nenhum. Talvez seja exatamente essa autenticidade de dor que falta na era do wellness industrializado. Hesse não vendia cura rápida. Vendia, na verdade, a permanência no incômodo. E estranhamente, isso é o que mais parece ressoar hoje.

A pergunta que fica é se essa popularidade tardia honra ou trai o escritor. Provavelmente ambas. Hesse, que tanto valorizava a busca individual, teria achado divertido ver seus livros virarem código de tribos juvenis tão distintas — de fãs coreanos a universitários paraibanos, passando por rappers de São Paulo. Ou teria achado deprimente. Com ele, nunca se sabia. O que se sabe é que, 62 anos após sua morte, o homem que não conseguia se encaixar no seminário pietista de seus pais finalmente encontrou seu público: todos aqueles que, como ele, também não conseguem se encaixar em lugar nenhum.

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