Morre aos 35 anos Daveigh Chase, voz de Lilo e rosto do pesadelo de Samara em 'O Chamado'
Atriz que deu vida a duas das personagens mais icônicas do cinema morreu após falência múltipla de órgãos provocada por meningite bacteriana
O cinema americano perdeu nesta terça-feira, 16 de junho, uma das vozes que marcou a infância de toda uma geração e um dos rostos que mais assustaram plateias no início dos anos 2000. Daveigh Chase morreu aos 35 anos em Los Angeles, deixando para trás uma carreira curta, intensa e cheia de contrastes — da doçura de uma garotinha havaiana à crueldade gélida de uma criança fantasma que saía de dentro de poços para castigar adultos pecaminosos.
A informação foi confirmada ao portal TMZ por Roy Hernandez, namorado da artista. Segundo a família, Chase veio a óbito após falência múltipla de órgãos, consequência de uma meningite bacteriana que evoluiu para infecção sanguínea grave — a temida sepse. O quadro clínico teria se iniciado após uma internação por desnutrição, detalhe que só torna a tragédia ainda mais incompreensível para quem acompanhou a trajetória da jovem desde os tempos de estrela infantil.
Do paraíso tropical ao poço mais sombrio de Hollywood
Nascida em Las Vegas, no dia 24 de julho de 1990, Daveigh Elizabeth Chase-Schwallier — nome que simplificou após o divórcio dos pais, Cathy Annette Chase e John David Schwallier — cresceu em Albany, Oregon, antes de mudar para a terra das promessas cinematográficas em 1998. Foi nesse ano que a carreira começou, aos sete anos de idade, com pequenas aparições na televisão.
A virada veio em 2002, quando a Disney a escolheu para dar voz a Lilo Pelekai, a menina havaiana que adota um alienígena azul disfuncional e tenta civilizá-lo usando Elvis Presley como referência moral. O sucesso de Lilo & Stitch rendeu a Chase um Annie Award de melhor dublagem em 2003 e a consagrou como uma das vozes mais reconhecidas da animação ocidental. No mesmo período, ela também dublou Chihiro Ogino na versão americana de A Viagem de Chihiro, do Studio Ghibli, reforçando seu domínio sobre personagens infantis complexas e culturalmente distintas.
Mas se por um lado Chase construía paraísos sonoros, por outro ela mergulhava em pesadelos visuais. Ainda em 2002, interpretou Samara Morgan em The Ring — ou O Chamado, para os brasileiros —, o remake americano do clássico japonês de terror. A menina de cabelos negros cobrindo o rosto, que matava qualquer um que assistisse a uma fita amaldiçoada sete dias depois, rendeu à atriz o prêmio de Melhor Vilão no MTV Movie Awards 2003. Curiosamente, ela derrotou ninguém menos que Mike Myers, Colin Farrell, Willem Dafoe e Daniel Day-Lewis na categoria — prova de que, mesmo entre monstros consagrados, a garotinha do poço tinha seu lugar garantido.
A carreira seguiu com participações relevantes, como Donnie Darko (2001), onde viveu Samantha Darko, papel que repetiu na sequência S. Darko (2009). Entre 2006 e 2011, fez parte do elenco de Big Love, série da HBO sobre poligamia mórmon, interpretando Rhonda Volmer, uma adolescente sociopata criada em ambiente fundamentalista. A atriz ainda acumulou passagens por projetos musicais entre 1999 e 2011, com registros em gravadoras como Universal Records, Hip-O Records e Walt Disney Records.
A partir de 2016, porém, o silêncio. Chase simplesmente desapareceu das telas, num hiato que coincidiu com uma série de problemas com a justiça — direção perigosa e crimes relacionados a drogas figuraram entre os motivos que a levaram a abandonar a profissão. A informação, registrada em sua página na Wikipédia, é um lembrete brutal de como Hollywood mastiga talentos precoces e os cospe quando a narrativa conveniente se esgota. Agora, com sua morte prematura, resta a indústria que a celebrou reconhecer que perdeu uma artista cuja versatilidade raramente foi devidamente valorizada — capaz de fazer crianças sorrirem e adultos dormirem com as luzes acesas, muitas vezes no mesmo ano.
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