MINUSTAH: a polêmica missão de paz que marcou o Haiti por 13 anos e deixou legado de controvérsias
Operação liderada pelo Brasil encerrou em 2017 após acusações de abusos, epidemia de cólera e morte de dezenas de militares; relembre a história da maior missão de paz da ONU no Caribe.
A Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH) representa um dos episódios mais desafiadores das ações de pacificação conduzidas pela Organização das Nações Unidas. Estabelecida pelo Conselho de Segurança da ONU em meados de 2004, a iniciativa buscou restabelecer a estabilidade institucional na nação caribenha após revoltas armadas e a saída do presidente Jean-Bertrand Aristide. Na ocasião, estimava-se que 25 mil integrantes de facções criminosas dominavam vastas áreas, enquanto a Polícia Nacional do Haiti mal ultrapassava os 3.500 efetivos.
Sob a liderança militar do Brasil, que aportou o maior grupo de tropas, a operação mobilizou mais de 36 mil militares brasileiros ao longo de 13 anos, envolvendo o Exército Brasileiro, a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira. O comando passou por diversas mãos, começando com o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira e encerrando com o general Ajax Porto Pinheiro. O período também registrou a histórica participação de quatro oficiais femininas, como a médica Stella Beatriz Kruger, e a realização do chamado Jogo da Paz, no qual a Seleção Brasileira de Futebol enfrentou a Seleção Haitiana de Futebol em Porto Príncipe, com o aval da FIFA.
Tragédias e acusações mancham atuação das tropas
A trajetória da força internacional foi profundamente afetada por ocorrências trágicas e denúncias graves. No início de 2006, o general Urano Teixeira da Matta Bacellar, que respondia pelo comando, foi achado sem vida em um quarto de hotel na capital haitiana. As investigações do Instituto Médico Legal de Brasília, corroboradas pela ONU, apontaram suicídio. Quatro anos depois, o forte terremoto de janeiro de 2010 ceifou a vida do chefe da missão, Hédi Annabi, do diplomata Luís Carlos da Costa e de 18 militares brasileiros, elevando para 38 o total de mortos da operação.
Para além das baixas, a missão enfrentou severas críticas por ações contra civis, com destaque para a operação no bairro de Cité Soleil, em 2005, que resultou em cerca de 60 fatalidades. A controvérsia atingiu seu ápice com a eclosão de uma epidemia de cólera em 2010, originada da contaminação do rio Artibonite por dejetos de uma base nepalesa. A doença, que havia sido eliminada do país desde o século XIX, vitimou milhares de pessoas, e a ONU recusou-se a pagar indenizações. Um levantamento da Universidade de Colúmbia, realizado em 2012, apontou que 65% da população local rejeitava a presença estrangeira. Diante de protestos crescentes e da aprovação de resoluções no Senado haitiano exigindo a retirada, a operação foi encerrada em outubro de 2017, dando lugar à Missão das Nações Unidas para o Apoio à Justiça no Haiti (MINUJUSTH).
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