MINUSTAH: a missão de paz que virou piada de mau gosto nas redes — e no Haiti
Enquanto brasileiros postam memes nostálgicos, haitianos lembram de tanques, cólera e "Jogo da Paz" com goleada humilhante
Se você navega pelo Twitter neste 2026, pode esbarrar em algum veterano postando foto de farda com legenda nostálgica sobre a MINUSTAH — aquela aventura tropical do Brasil no Haiti que durou treze anos, custou dezenas de vidas e deixou um rastro de controvérsias que nem o melhor filtro do Instagram consegue embelezar. O tal Jogo da Paz virou meme recorrente: o Brasil aplicou um sonoro 6 a 0 na seleção haitiana em 2004, e a internet, claro, nunca perdoou. "Levamos a paz no campo e fora dele", brinca algum usuário, enquanto outro completa: "Pelo menos em algum lugar a Seleção ganha."
Mas eis o problema: do outro lado do Caribe, a piada não cai bem. Para os haitianos, a missão da ONU foi tudo, menos engraçada. Em 2013, o senado haitiano aprovou por unanimidade resoluções exigindo o fim da ocupação. Jean Charles Moise, senador e opositor do governo Michel Martelly, foi até o Brasil em 2014 pedir algo que soou quase poético na tragédia: "Substituam seus tanques de guerra por tratores agrícolas." A frase, reproduzida nas redes, virou símbolo do desencontro entre discursos.
Entre o laudo de suicídio e a epidemia de cólera
A memória digital brasileira costuma ignorar os detalhes inconvenientes. O general Urano Teixeira da Matta Bacellar, por exemplo, não merece muitos posts: encontrado morto em 2006, teve suicídio confirmado pelo IML de Brasília e pela ONU — caso raro de consenso entre instituições que normalmente discordam. Já a epidemia de cólera de 2010, provocada por esgotos de uma base nepalesa da missão, é mencionada nas fontes como lembrança que a Organização das Nações Unidas preferiu não indenizar. Nas redes, porém, o assunto some atrás de fotos de soldados distribuindo cestas básicas.
O que resta é o habitual espetáculo de duas memórias paralelas: de um lado, brasileiros celebrando uma "missão de sucesso" que projetou o país no cenário internacional, com direito a participação do Exército Brasileiro e holofotes para generais como Augusto Heleno Ribeiro Pereira e Carlos Alberto dos Santos Cruz — este último, posteriormente, nomeado por Bolsonaro para a Secretaria de Governo. Do outro, haitianos que, segundo estudo da Universidade de Colúmbia em 2012, tinham 65% de rejeição à ocupação. A Cité Soleil, cenário de operação que deixou cerca de 60 mortos em 2005, não virou trend topic. Talvez por falta de Wi-Fi, talvez por falta de interesse.
Quando um país mantém tropas em outro, sem que este o queira, estamos diante de uma ocupação. Não existe outra maneira de se chamar isso. — Jean Charles Moise, senador haitiano
Nas fontes mais recentes, o presidente Lula ainda mantém encontros com autoridades haitianas — como o encontro com o primeiro-ministro em Nova York registrado pelo Planalto —, sugerindo que a relação segue viva, para bem ou para mal. Enquanto isso, as redes sociais brasileiras seguem seu ciclo eterno: hoje é meme do Jogo da Paz, amanhã será alguma outra intervenção humanitária cuja complexidade não cabe em 280 caracteres. Ou em 36.108 militares enviados entre 2004 e 2017.
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