Esportes

França 'sem franceses'? O deboche das redes que virou tsunami xenofóbico na Copa

Três jogadores nascidos fora do país e 75 atletas franceses vestindo outras camisas: como a internet transformou identidade nacional em campo de batalha.

0votos
/5 · 0
👁 0 💬 0
França 'sem franceses'? O deboche das redes que virou tsunami xenofóbico na Copa
Imagem: Wikimedia Commons

Você abre o Twitter, o Instagram, qualquer rede social durante a Copa do Mundo e lá está: o meme pronto, a piada fácil, o comentário carregado de veneno. A França não tem jogadores franceses de verdade. Quantas vezes você já leu essa frase nos últimos dias? Quantas vezes riu, concordou ou simplesmente passou reto, achando que é só mais uma bobagem da internet? Pois é exatamente aí que mora o perigo. O que começou como deboche inocente virou uma máquina de reproduzir preconceito disfarçado de humor de torcedor.

A verdade dos números, porém, é mais complexa do que os memes sugerem. A seleção francesa tem, sim, três jogadores nascidos fora do território nacional. Três. Em um elenco de vinte e poucos atletas. Difícil de engolir? Depende do seu nível de intolerância. Mas o dado que realmente explode a cabeça é outro: 76 jogadores franceses estão defendendo outras seleções no mesmo torneio. Isso mesmo, setenta e seis. Enquanto uns poucos nascidos além-mar vestem azul, um exército inteiro de atletas formados na França, com sangue francês, passaporte francês e sotaque francês, decidiram — ou foram decididos por laços familiares — honrar outras bandeiras. A Costa do Marfim, por exemplo, já humilhou a própria França em campo com oito franceses no time adversário. Onde estavam os memes xenofóbicos nesse dia?

O paradoxo que os haters preferem ignorar

Agora vem a parte que faz o raciocínio preguiçoso das redes desmoronar completamente. Se a França é essa suposta "seleção africana" que tanto ironizam, como explicar que Benzema, Camavinga e Griezmann ficaram fora da convocação? Griezmann, aquele que nasceu em Mâcon, no centro da França, descendente de alemães e portugueses, ficou de fora. Camavinga, nascido em Cabinda, Angola, também. E Benzema, o artilheiro nascido em Lyon, filho de argelinos, fora. A lógica do "não tem francês de verdade" desanda quando percebemos que a French Football Federation está excluindo justamente os rostos que alimentam o discurso da diversidade. Ou será que agora querem argumentar que Griezmann também não é francês o suficiente?

O que as pessoas conveniently esquecem — ou talvez nunca tenham se dado ao trabalho de aprender — é que a imigração, a naturalização e a dupla cidadania são pilares do futebol mundial há décadas. Não é bug, é feature. É assim que funciona quando você tem impérios coloniais, guerras mundiais, deslocamentos populacionais e, pasmem, amor. Sim, aquela coisa brega que faz um angolano nascer em Cabinda, crescer em Fougères, sonhar com a camisa azul e ser cortado por técnico bunda-mole. A hipocrisia fede quando comparada ao tratamento dado a outros países. Ninguém questiona se Luis Suárez é uruguaio de verdade porque nasceu em Salto, não em Montevidéu? E os italianos convocados da Scuola Italiana espalhada pelo mundo, são menos italianos?

As redes sociais transformaram o debate sobre identidade nacional num espetáculo de crueldade performática. Cada post com a foto de Kylian Mbappé acompanhada de "volta pro Senegal" é um tapa na história de milhões de famílias que atravessaram oceanos, desertos e fronteiras para construir vida nova. E não, não estou sendo o politicamente correto chato de plantão. Estou sendo alguém que sabe ler números e entende que três estrangeiros não fazem uma seleção africana, assim como 75 franceses espalhados pelo globo não fazem a França menos francesa. O que faz a França menos francesa, se é que algo faz, é a incapacidade de reconhecer que ser francês — como ser brasileiro, americano ou qualquer outra nacionalidade — nunca foi questão de pureza de sangue. Exceto, claro, para quem sente falta de regimes que já deveriam estar sepultados.

E enquanto isso, o Brasil segue aqui, pentacampeão, invicto em finais, presente em todas as Copas. Será que alguém se lembra da polêmica de 1938, quando Leônidas da Silva, o Diamante Negro, foi suspostamente "comprado" para não enfrentar a Itália? As teorias da conspiração não são novas. O que mudou foi o algoritmo que as amplifica. A França de hoje vive o mesmo dilema que o Brasil de ontem: quando o outro, o diferente, o descendente de imigrante brilha, há sempre um confortável e covarde questionamento sobre sua legitimidade. A diferença é que agora o ódio tem hashtag e viraliza em segundos. Parabéns, internet. Você conseguiu fazer do esporte mais universal do planeta mais um campo minado de identitarismo barato.

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar.