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França na Copa 2026: torcedor abre escalação e pergunta 'cadê os franceses?' — a internet não perdoou

Com três jogadores nascidos fora do país e 76 franceses vestindo outras camisas no Qatar, a discussão sobre identidade nacional explodiu nas redes. Será xenofobia ou apenas saudade do 'bleu' tradicional?

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França na Copa 2026: torcedor abre escalação e pergunta 'cadê os franceses?' — a internet não perdoou
Imagem: Wikimedia Commons

A internet brasileira, esse tribunal eternamente em sessão, encontrou mais um motivo para erguer sua toga improvisada. Enquanto o Brasil se prepara para mais uma Copa do Mundo — aquela que, segundo a Wikipédia, já nos viu chorar, vibrar, conspirar e até processar jornalistas por calúnia contra Leônidas da Silva —, a França resolveu presentear o mundo com uma polêmica que mistura futebol, identidade nacional e aquele sentimento de "meu país não é mais meu país".

O estopim veio da convocação da seleção francesa para a Copa de 2026, anunciada pela CNN Brasil com a ausência de um meia do Real Madrid. Mas não foi a omissão que movimentou as timelines. Foi a composição do elenco. De acordo com reportagens do InfoMoney e do portal Terra, a França conta com três jogadores nascidos fora do território hexagonal e, pasmem, 76 atletas com nacionalidade francesa defendendo outras seleções no torneio. É o equivalente a três times completos mais reservas, espalhados pelo mundo vestindo cores que não são o azul, branco e vermelho.

A ironia do colonialismo em campo: quando a França perde para si mesma

A cereja do bolo dessa história veio do portal Lance!, que registrou um episódio deliciosamente surreal: a Costa do Marfim venceu a própria França em um amistoso com oito — repito, oito — jogadores franceses em campo. O confronto entre antiga metrópole e ex-colônia virou, nas redes, uma aula prática de como o imperialismo moderno se veste de chuteira. Os comentários não tardaram: "A França perdeu para a França B", ironizou um internauta. "Finalmente entendi o conceito de globalização", completou outro, provavelmente entre uma busca no Google e outra sobre como funciona a dupla cidadania.

O site Trivela tentou trazer um pouco de racionalidade ao debate, publicando um artigo com o sugestivo título de que não se deve repetir "opiniões equivocadas" sobre imigração, naturalização e dupla cidadania na Copa. Nobre tentativa, mas como bem sabemos, a internet adora uma opinião equivocada. Especialmente quando vem embrulhada em patriotismo barato e nostalgia de um passado que, convenhamos, nunca existiu da forma como se lembra. A publicação do Diplomatique foi ainda mais incisiva, sugerindo que o conceito de "tipicamente francês" é, na verdade, uma ignorância disfarçada de tradição. O texto certamente não agradou os guardiões da pureza étnica que, curiosamente, nunca se preocuparam com a pureza quando Zinedine Zidane — filho de argelinos — cabeceava adversários em finais de Copa.

A repercussão nas redes sociais seguiu o roteiro previsível de toda discussão sobre identidade nacional no esporte. De um lado, os defensores do "meritocrático", que argumentam que se nasceu em Marte mas joga bem, deve vestir a camisa que quiser. Do outro, os heróis da genealogia amadora, prontos para rastrear árvore genealógica completa com a mesma energia que dedicam a evitar imposto de renda. O Estadão, ao noticiar o amistoso entre Brasil e França como "teste mais duro antes da Copa", talvez não soubesse que o verdadeiro teste seria justamente esse: como uma nação que se construiu sobre migrações, colonizações e fusões culturais lida com a própria imagem no espelho quando o espelho usa camisa 10 e marca gol pelo time adversário?

O portal Goal.com, em sua análise sobre quais jogadores chegarão à Copa de 2026 nos EUA, México e Canadá, destacou a ausência de nomes como Benzema, Camavinga e Griezmann da convocação anterior — craques que, nascidos em território francês ou naturalizados, representariam justamente essa complexidade identitária que tanto incomoda. A CBN também registrou a lista dos que ficaram de fora, reforçando que ser "francês de verdade" nunca foi critério para seleção, mas sim talento, tática e, aparentemente, decisões técnicas que ninguém aqui tem capacidade de entender completamente.

No fim das contas, a pergunta que ecoa nos corredores virtuais — "por que a França não tem jogadores franceses de verdade?" — revela mais sobre quem pergunta do que sobre quem responde. É a mesma França que, em 1998, conquistou sua primeira Copa com um time tão miscigenado que a FIFA praticamente precisou inventar o conceito de "sociedade multicultural" para explicar a festa. É a mesma que, em 2018, repetiu o feito com Kylian Mbappé, filho de camaronês e argelina, como estrela. A única novidade é que agora, em 2026, com 76 franceses espalhados por outras seleções, a discussão finalmente virou de cabeça para baixo: não é mais sobre quem entra na França, mas sobre quem a França deixa escapar. E se a Costa do Marfim vence com oito franceses, talvez o problema não seja a falta de franceses na França. Talvez seja a França não saber mais o que fazer com eles.

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