De Taguatinga ao Lyon: os bastidores da ascensão de Endrick que poucos conhecem
Antes dos holofotes, o atacante enfrentou rejeição do São Paulo e teve o pai como agente improvável, postando vídeos no YouTube para chamar atenção dos grandes clubes
Revisado por Henrique Salles · Editado por Vinícius Castro
Aos dezenove anos, Endrick Felipe Moreira de Sousa já acumula uma trajetória que desafia a lógica do futebol moderno. Natural de Taguatinga, no Distrito Federal, e criado em Valparaíso de Goiás, o atacante transformou obstáculos em degraus para uma carreira que o levou do anonimato do Centro-Oeste brasileiro aos gramados da Espanha e da França, passando pelo maior palco do futebol mundial com a camisa da Seleção Brasileira. Filho mais velho de Cíntia e Douglas Ramos, o jogador começou a chutar bola aos quatro anos e logo chamou a atenção de quem entende do assunto.
O início, contudo, foi marcado por uma reviravolta que poderia ter abortado tudo antes mesmo de começar. Aos oito anos, quando defendia o Brasília Fut Academy, time parceiro do São Paulo, Endrick recebeu convite para integrar as categorias de base do clube paulista e morar nos alojamentos da Barra Funda. A negociação desmoronou quando Douglas Ramos, pai do atleta, solicitou que o São Paulo também providenciasse moradia ou emprego para ele na capital — condição que o tricolor recusou. A decisão do clube, tomada diante de uma criança que mal havia completado oito anos de idade, obrigou a família a buscar alternativas fora do eixo Rio-São Paulo. Marília Rocha, professora da escolinha onde o garoto jogava, relatou à ESPN Brasil em 2025 que enxergou algo diferente no menino desde o primeiro contato com a bola, destacando força e habilidade incomuns para a idade.
O pai que virou empresário de improviso e a descoberta pelo Palmeiras
Diante do impasse com o São Paulo, Douglas Ramos recorreu a uma ferramenta então inédita para a revelação de talentos no Brasil: o YouTube. Ele passou a publicar gols e lances do filho na plataforma de vídeos, concentrando esforços em um torneio infantil internacional denominado Go Cup. Os números impressionaram — dezessete gols em apenas sete partidas — e chamaram a atenção do departamento de scouting do Palmeiras. O diretor João Paulo Sampaio, responsável pela base alviverde, convidou Endrick para uma semana de testes no clube. A aprovação veio de imediato. Sampaio, em declaração à BBC em 2022, resumiu o que viu naqueles primeiros dias: cada desafio imposto ao garoto encontrava resposta imediata. Aos dez anos, Endrick mudou-se com os pais para a capital paulista, integrando o time sub-11 do Palmeiras. O clube, diferentemente do São Paulo, aceitou a condição familiar: Douglas foi contratado como auxiliar de limpeza nas instalações do clube, garantindo estabilidade para que o filho pudesse se desenvolver. Nos cinco anos seguintes, Endrick marcou 161 gols em 188 jogos nas categorias de base — média superior a 0,85 gol por partida.
Aos quinze anos, Endrick integrou o elenco campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2022, título inédito para o Palmeiras na competição. O ingresso no elenco profissional ocorreu ainda em 2022. Pelo clube paulista, o atacante conquistou cinco títulos antes de deixar o país. Em dezembro daquele mesmo ano, o Real Madrid anunciou sua contratação, embora o contrato só pudesse vigorar a partir de julho de 2024, quando o atleta completasse dezoito anos. Na temporada 2025–26, contudo, o atacante teve poucas oportunidades de jogo sob o comando de Carlo Ancelotti. Em dezembro de 2025, foi emprestado ao Lyon, da França, onde somou vinte e uma partidas e oito gols até maio de 2026.
A trajetória pela Seleção Brasileira acompanhou o ritmo da carreira. Convocado pela primeira vez em novembro de 2023, Endrick estreou e marcou seu primeiro gol em março de 2024, no Estádio de Wembley, contra a Inglaterra. Ronaldo Nazário, ídolo da torcida brasileira, manifestou publicamente apoio ao jovem após a estreia da equipe na Copa do Mundo. A projeção da imagem do atacante, por sua vez, ganhou contornos de fenômeno de colecionador. A Panini, tradicional editora de figurinhas, incluiu Endrick em set especial de atualização do álbum oficial da Copa do Mundo ao lado de Neymar. De Valparaíso de Goiás aos cadernos de colecionadores, a história de Endrick preserva em cada capítulo a marca de quem precisou construir o próprio caminho, vídeo a vídeo, gol a gol, recusa a recusa.
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