Jornalismo

Brasil no Haiti: de 'Jogo da Paz' a denúncias de abusos, a missão que divide opiniões até hoje

O que seria uma operação humanitária virou piada nas redes: torcedores lembram goleada de 6 a 0, enquanto ativistas cobram justiça por crimes cometidos por tropas da MINUSTAH.

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Brasil no Haiti: de 'Jogo da Paz' a denúncias de abusos, a missão que divide opiniões até hoje
Imagem: Wikimedia Commons

Enquanto o Brasil tentava vender ao mundo uma imagem de potência humanitária, a internet tinha outros planos. O tal Jogo da Paz de 2004 — aquela goleada de 6 a 0 sobre o Haiti em plena Porto Príncipe, com direito a show de Ronaldinho Gaúcho — virou meme eterno nas redes. Afinal, nada diz "estabilização" como meter meia dúzia de gols em seleção de país em crise, né? A CBF e o Exército até hoje reverenciam a partida como gesto de solidariedade. Solidariedade que, convenhamos, deixou os haitianos com mais gols sofridos que pontos de esperança.

Do campo às denúncias: a outra face da missão

Mas se nas timelines o tom é de deboche com o futebol, nos fóruns de ativismo a conversa é bem outra. A MINUSTAH — essa missão de paz que durou de 2004 a 2017 — carrega um histórico que o Exército Brasileiro preferiria enterrar junto com os tweets antigos. Milhares de denúncias de abusos, repressão a manifestações populares e, o ápice, a epidemia de cólera de 2010 ligada a esgotos de uma base nepalesa da missão. A Organização das Nações Unidas ainda teve a decência de anunciar que não indenizaria as vítimas. Gestão de crise no estilo "se vira aí, Haiti".

O senador haitiano Jean Charles Moise já havia resumido a farra em 2014: pediu ao Brasil que trocasse "tanques de guerra por tratores agrícolas". A internet, claro, adora ignorar essa parte. Prefere os vídeos do Lula comemorando o jogo, ou as fotos de soldados brasileiros posando com crianças. O que não falta é material pra montar aquele discurso lacrador de "ajuda humanitária" — só esquecem de mencionar que 65% dos haitianos eram contra a ocupação, segundo estudo da Universidade de Colúmbia em 2012.

Hoje, com o general Carlos Alberto dos Santos Cruz — ex-comandante da missão — virando figura política nacional, as redes revisitam o tema com frequência renovada. Tem quem defenda a operação como sucesso diplomático; tem quem lembre que o mesmo general que pacificava Porto Principe depois virou ministro do Bolsonaro. A vida imita a timeline, e a timeline não perdoa.

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