Ancelotti: o início humilde que quase o fez desistir antes de virar lenda do futebol mundial
Antes de conquistar o mundo, o técnico italiano quase abandonou a carreira na Série B italiana. Conheça os bastidores da trajetória que o transformou em um dos maiores nomes da história.
Revisado por Henrique Salles · Editado por Vinícius Castro
O nome de Carlo Ancelotti hoje ecoa nos corredores do poder do futebol mundial como sinônimo de sucesso e longevidade. Mas poucos lembram que, antes de erguer taças nas maiores capitais da Europa, o italiano passou por momentos de tanta angústia que chegou a duvidar de sua própria permanência na profissão. A trajetória de um dos treinadores mais vitoriosos da história começou longe dos holofotes, em um ambiente de pressão tão avassalador que ele próprio admitiu ter pensado em abandonar tudo.
A história de Ancelotti como treinador teve origem no banco de reservas da Seleção Italiana, onde atuou como auxiliar técnico de Arrigo Sacchi entre 1992 e 1995. Foi nesse período que ele vivenciou de perto uma das finais mais dramáticas da história das Copas do Mundo. A dupla levou a Itália à decisão da Copa de 1994, nos Estados Unidos, mas viu o sonho do tetracampeonato escapar pelas mãos de Roberto Baggio, que errou o pênalti decisivo contra o Brasil. Anos depois, em 2016, Ancelotti não escondeu a mágoa residual: classificou a experiência ao lado de Sacchi como "inesquecível", mas lamentou a falta da "cereja do bolo" — o título que não veio.
Do trauma da Série B ao nascimento de um campeão
Em 1995, Ancelotti finalmente assumiu seu próprio comando, mas longe do glamour que viria posteriormente. O destino foi o Reggiana, modesto clube disputando a Série B italiana. O que se seguiu foi uma provação de fogo para o então iniciante treinador. Em seus primeiros cinco jogos na competição, ele não conseguiu uma única vitória: foram duas derrotas e três empates. Na Coppa Itália, a situação não foi muito diferente — eliminação por 3 a 0 nas oitavas de final para o Bologna Football Club 1909. Apesar do revés, estreou vencendo o Trapani Calcio nos pênaltis e ainda superou a Società Sportiva Calcio Bari por 2 a 0. Foi justamente nesse turbilhão de resultados adversos que Ancelotti sentiu pela primeira vez o peso esmagador da profissão. Em entrevista concedida em 2024, ele revelou com rara sinceridade os demônios que o assombravam na época. Contou que viveu sua maior pressão logo no começo, na segunda divisão, e que o estresse era tão difícil de administrar que chegou a afirmar a um assistente que não chegaria aos anos 2000. Ironizou, porém, que seguiu em frente até 2024 e aprendeu, com o tempo, a usar a pressão como combustível para o trabalho.
A passagem pelo Reggiana durou apenas uma temporada, encerrada com números que não assustam: 17 vitórias, 14 empates e 10 derrotas em 41 jogos, com aproveitamento de 52,8%. Foi o suficiente, porém, para chamar a atenção da Parmalat, que o seduziu com um projeto mais ambicioso no Parma. E foi no Emília-Romanha que Ancelotti começou a desenhar a reputação que o acompanharia para sempre: a de gestor de talentos e construtor de equipes. No clube, encontrou um elenco que misturava jovens promessas e peças consolidadas. Lá ele cruzou caminhos com nomes que definiriam gerações do futebol italiano e mundial: Hernán Crespo, recém-contratado para o ataque; Pietro Strada, ala que havia trabalhado com ele no clube anterior; Dino Baggio; Enrico Chiesa; Lilian Thuram; e, especialmente, Fabio Cannavaro e Gianluigi Buffon. Foi com essa dupla de defesa que Ancelotti demonstraria a ousadia que se tornaria marca registrada.
Buffon, que completava um ano no profissional sem sequência como titular, foi abruptamente promovido por Ancelotti à condição de dono da posição — à frente de Luca Bucci, seu companheiro de Seleção e amigo. O goleiro jamais esqueceu o gesto: declarou que Ancelotti era o treinador a quem mais devia, reconhecendo que, se Nevio Scala teve a ideia de lançá-lo no Parma, o técnico foi ainda mais ousado ao colocá-lo como titular após poucos jogos. Crespo, por sua vez, guardou outro tipo de gratidão. Para o argentino, Ancelotti representou uma espécie de mentor fora de campo. O atacante afirmou que o italiano lhe ensinou como um atleta vive, como se alimenta e como dorme, e ressaltou que ele sempre se importou muito com os jovens jogadores, sendo ouvi-lo a melhor coisa que um jogador em início de carreira pode fazer. Essa faceta paterna — que ressurgiria décadas depois em episódios como o conselho paternal a Victor Munoz — parece ter sido cultivada desde os primeiros passos de Ancelotti no comando técnico.
Comentários (0)
Entre para comentar.
Seja o primeiro a comentar.