Wim Wenders em Cannes: documentário é mais livre, mas ficção ainda leva a Palma
Diretor alemão compara gêneros, defende o risco do real e revela que usará IA como tema, não como ferramenta, em seu próximo projeto.
Quase quatro décadas após conquistar a Palma de Ouro, Wim Wenders retornou ao Festival de Cannes com uma dupla de filmes e uma opinião desacomodada sobre a indústria. Acompanhado pelo experimental "Anselm" e pela ficção "Perfect Days", o veterano diretor alemão não hesitou em afirmar que o documentário é infinitamente mais livre que o cinema de narrativa tradicional. Segundo ele, enquanto a ficção insiste em cozinhar as mesmas receitas e fórmulas enfadonhas, o gênero documental permite trabalhar com uma liberdade que beira o arriscado. Não se trata de demolir Hollywood, mas de apontar que a verdadeira experimentação acontece quando se abandona o roteiro previsível.
Imersão em 3D e o papel da inteligência artificial
Em "Anselm", tributo ao artista Anselm Kiefer, Wenders resgatou a técnica 3D, não como mero artifício visual, mas como ferramenta de imersão emocional necessária para compreender obras monumentais, abordagem que já havia testado anteriormente com a coreógrafa Pina Bausch. Contudo, não espere que o cineasta abra os braços para todas as novidades tecnológicas sem ressalvas. Ao discutir inteligência artificial, foi categórico: usar a IA como meio de produção não lhe interessa. Para Wenders, o virtual mostra, mas não conta histórias. A ironia fina fica por conta de sua próxima empreitada: ele está preparando um filme de ficção científica onde a inteligência artificial terá um "grande papel" como tema, provando que sabe distinguir entre ter a tecnologia como assunto ou como autora.
O destino, ou talvez o mercado, pregou uma peça interessante: mesmo defendendo a superioridade libertária do documentário, foi sua ficção "Perfect Days", rodada no Japão, que integra a disputa oficial pela Palma de Ouro. Wenders reconhece que grandes festivais, incluindo vitórias recentes em Veneza e Berlim, estão finalmente abrindo espaço para documentários na competição, mas admite que a velha guarda ainda reserva o maior prestígio à invenção de histórias. No fim das contas, ele resume sua obsessão criativa com uma sinceridade desconcertante: faz filmes porque não sabe como fazê-los. Se soubesse, pararia. Uma confissão rara em um mundo cheio de diretores que acreditam possuir todas as respostas na ponta da língua.
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